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Ônibus afugentam passageiros em BH e estão longe de cumprir meta

Plano BH 2030 prevê mais viagens por transporte público, mas volume de usuários tem profunda queda; passagem cara, contrato defasado e sucateamento põem o setor em crise


Investimentos escassos, tarifa cara, redução do número de viagens e por aí vai... A realidade do transporte público em Belo Horizonte tem atraído cada vez menos passageiros, o que pode inviabilizar uma das principais metas de mobilidade estabelecidas pela prefeitura, que prevê 32% dos deslocamentos na cidade feitos pelo transporte público até 2030.


Os dados mais recentes, de 2012, apontam que esse percentual era de 28,1% na época. Mas, desde então, o sistema já acumulou a perda de quase 102 milhões de passageiros somente até 2019 – queda de 22%. Com a pandemia do coronavírus, a situação se agravou. Em 2020 foram apenas 192 milhões de usuários – menos da metade (57,66%) dos 455 milhões de 2011.


Como consequência, o número de viagens também reduziu. Segundo a Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), foram realizadas cerca de 5 milhões de viagens no ano passado, contra 8 milhões há nove anos.


Quando essas metas foram pensadas, em 2011, a previsão era ainda mais grandiosa, de 70% das viagens em BH serem feitas pelo transporte coletivo, e o trunfo da prefeitura era o Move, que já tinha projeto. Mas a falta de ampliações e investimentos no sistema, implementado em 2014, estagnaram a busca por novos passageiros.


“Desde que o Move foi criado, não se abriu nova estação, e poucas linhas foram criadas. A BHTrans tem vários projetos que não andam, há dificuldade até para se criar faixas exclusivas de ônibus, e isso, no longo prazo, somado a vários fatores, desestimula o usuário, que passa a buscar novas alternativas”, avalia o consultor de trânsito Osias Baptista.


Segundo a BHTrans, hoje o Move corresponde a 14,2% das viagens totais de ônibus na cidade, um pouco mais do que em 2019, quando era 12,97%. “BH não tem 1 km de faixa exclusiva para ônibus desde 2017, implantou baixíssimos quilômetros de ciclovia, não integrou as tarifas, nem mesmo entre o transporte suplementar e complementar. Não atuou na integração física das estações, com a implantação de bicicletários”, diz o economista e pesquisador de mobilidade urbana André Veloso.


Tarifa cara Um dos principais motivos para evasão de passageiros em BH, segundo os especialistas ouvidos pelo O TEMPO, é o preço da passagem. Desde 2011, o valor da tarifa subiu 69,81% – de R$ 2,65 para R$ 4,50.


João Luiz da Silva Dias, especialista em trânsito e ex-presidente da BHTrans, avalia que esse valor é resultado de uma contabilidade equivocada, que sobrecarrega o usuário. “Hoje você tem uma tarifa mal calculada, com base nos gastos que as empresas têm, e elas entregam a quantidade de viagens que querem por conta do contrato nefasto feito em 2008 e que ainda é vigente”, avalia Dias. Como o sistema é bancado integralmente pelo preço da tarifa, quanto menos passageiros, maior o valor da passagem.


“Com o sucateamento do sistema, o usuário é duplamente penalizado: ele paga mais, pois menos pessoas estão andando de ônibus, e fica com um serviço cada vez pior, pois a conta nunca fecha”, diz Osias Baptista.


Segundo a prefeitura, há estudos para instalação de mais um corredor do Move, na avenida Amazonas, a partir de 2024. A gestão municipal também disse que elevou os investimentos no setor – de R$ 384 milhões em 2017 para R$ 446 milhões em 2020. Sobre a tarifa e a situação do contrato com as empresas de ônibus, a prefeitura criou um comitê, que amanhã se reúne para começar a discutir mudanças. Mudanças devem ser imediatas Para que BH volte a atrair usuários para os ônibus, as mudanças devem ser profundas e imediatas, avalia a representante do Movimento Tarifa Zero, Annie Oviedo. “Não tem como depender só da tarifa para sustentar o sistema. Quem paga por isso é a parcela mais pobre da sociedade, e é muito injusto. Com um subsídio do poder público, a gente teria uma imediata diminuição do preço da tarifa. Um segundo passo seria a mudança no contrato”, avalia Annie.


André Veloso acredita que o poder público se tornou refém do atual modelo de gestão: “Antes, as empresas eram remuneradas pelos serviços prestados, se elas deixassem de fazer uma viagem, não recebiam pela quilometragem. Hoje, o máximo que acontece é a BHTrans dar uma multa, que vai parar na Justiça”, explica.


Atualmente, uma CPI na Câmara Municipal investiga a BHTrans e o contrato com as empresas de ônibus. “Já temos dois processos administrativos punitivos instalados na BHTrans por conta do contrato que claramente tem um cartel, em 2008”, disse o vereador Gabriel Azevedo (sem partido), que preside a comissão.


Usuários

Para quem sofre diariamente com os problemas do transporte coletivo de BH, a necessidade de mudança é ainda mais urgente. “Poderiam colocar mais ônibus saindo dos bairros”, diz o balconista Igor Meira, 23. “Para cobrar esse preço caro, o horário poderia ser melhor. Todo dia eu fico quase uma hora no ponto”, completa a doméstica Maria Faustino, 50

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