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Apesar de acordo de 2016, ônibus ainda circulam sem ar-condicionado

No verão que começa nesta terça-feira, os ônibus municipais do Rio se mostram, mais uma vez, despreparados para acomodar seus passageiros. Com os sucessivos descumprimentos de prazos acordados, a tão prometida climatização de toda a frota vem sendo arrastada desde 2016. E o calorão que sufoca continua em pelo menos 37% dos coletivos da cidade, que circulam sem ar-condicionado ou com o aparelho desligado, à espera de manutenção, admite o Rio Ônibus — sindicato que representa as empresas.


Uma amostra do quão abafadas andam as viagens foi constatada por repórteres do GLOBO, que, com termômetro em mãos, entraram esta segunda-feira em veículos com janelas abertas no Centro e na Zona Oeste. As equipes aferiram temperaturas superiores a 30 graus dentro dos carros, semelhantes às que marcavam do lado de fora. Em todos os ônibus, no entanto, havia o adesivo informando sobre a existência de ar-condicionado. Em alguns, o aparelho era mantido somente na ventilação ou até desligado, mesmo com as janelas fechadas. Neste caso, a temperatura chegou 38 graus, ultrapassando a quentura do lado de fora.


No Terminal Rodoviário de Campo Grande, sob o sol de meio-dia, havia sete coletivos parados, de várias linhas. Todos tinham adesivo de ar-condicionado e estavam com as janelas abertas. No outro lado da rodoviária, na Rua Iaçu, o cenário era similar. Os dois veículo da linha 397 (Campo Grande-Candelária) estavam com a janela aberta e sem ar. Em um dos carros, a temperatura marcou 31,1 graus:


— Eu nem lembro qual foi a vez que peguei isso aqui com ar — reclamava a aposentada Odete Lima.


anela aberta contra vírus


Porta-voz do Rio Ônibus, Paulo Valente diz que 90% dos coletivos em circulação, que somam cerca de 3.200 veículos, estavam climatizados no início da pandemia da Covid-19. Mas alega que, com a determinação da prefeitura para que as janelas fossem abertas, a fim de evitar a transmissão do vírus, aparelhos ficaram desligados por quase dois anos e estão precisando de manutenção. O decreto autorizando a voltar a fechar as janelas de ônibus, táxis e veículos de aplicativos foi publicado em novembro.


— Temos 63% da frota que está rua climatizada. Mas não dá para confirmar se todos os que têm ar vão conseguir religá-lo neste verão, por conta da situação em que o setor se encontra. A manutenção de cada aparelho custa em torno de R$ 5 mil. O número de passageiros diminuiu na pandemia, e estamos com a tarifa congelada há quase três anos (o último reajuste ocorreu em janeiro de 2019) — argumenta Valente.


Para Ronaldo Balassiano, professor do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, contudo, as empresas estão “empurrando com a barriga” a climatização:


— As empresas têm sempre uma desculpa, não pensam no usuário. Além disso, não sabemos sequer quanto arrecadam, é o operador que controla as tarifas (a Riocard, ligada à Fetranspor). Nenhum interessado se apresentou na licitação para a implantação da nova bilhetagem.


A climatização dos ônibus e a suspensão dos reajustes tarifários envolvem um imbróglio judicial e decisões da prefeitura. Em fevereiro de 2014, foi firmado um acordo entre o Ministério Público e o município, homologado pelo Judiciário, para que 100% dos ônibus tivessem ar no fim de 2016, com o custo dos equipamentos incluído na planilha das empresas. O município chegou a ser multado pelo descumprimento do acerto. A confusão envolveu ainda uma decisão da prefeitura que ampliou a renovação da frota para o fim de 2020. Com a pandemia, houve novo adiamento, para 2024.


Rotina de agonia

Enquanto isso, a população sofre nos “quentões”. Um morador de Senador Camará, que preferiu não se identificar, embarcou, nesta segunda, num carro da linha 790 (Campo Grande-Cascadura) completamente fechado e com o ar só na ventilação. No percurso acompanhado pelo GLOBO, o termômetro mediu 31,6 graus, mais que do lado de fora (30,5).


— Pego esse ônibus duas vezes por semana. Boa parte dos carros não tem ar funcionando. Com as janelas todas fechadas, os motoristas abrem a saída de ventilação do teto para aliviar — diz o passageiro.


É uma rotina parecida com a da estudante Gilliane Fernandes, de 21 anos, que pega a 342 (Castelo-Jardim América) diariamente para ir de casa para o trabalho. A diferença é que, nesse caso, o teto não é aberto, assim como as janelas, e o ar não funciona nem parcialmente. Enquanto ela estava dentro do ônibus, o termômetro marcou 33 graus. Segundo a passageira, climatização é um sonho distante:


— Enfrento vários problemas com esse ônibus. Desde carro que quebra na Avenida Brasil até o próprio ar-condicionado, que, num calor desses, não funciona.


Além do 397, do 790 e do 342, as equipes do GLOBO também circularam em pelo menos um dos carros das linhas 742P (Campo Grande), 803 (Taquara-Senador Camará) e 745 (Bangu-Cascadura). O adesivo de ar-condicionado serviu apenas de enfeite. As janelas também estavam abertas.


Em nota, a Secretaria municipal de Transportes diz que, desde 19 de novembro, vem fiscalizando e autuando os consórcios por ônibus que operam com o ar desligado, mas não informou qual é hoje o percentual da frota climatizada. Já a Procuradoria-Geral do Município recorreu contra a aplicação de multa à prefeitura pelo descumprimento do acordo para a climatização.

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