• Tribuna do Norte

Crise do transporte público atrapalha a rotina dos natalenses

Bruno Vital

Repórter

Ônibus lotados, horários indefinidos, paradas em situação crítica e frota reduzida são as principais reclamações de quem depende do transporte público para se locomover em Natal. A capital vive uma crise no sistema de transporte público, que se agravou ao longo da pandemia de covid-19, com retirada de linhas, mudança de itinerários e sucessivos adiamentos na publicação da licitação do serviço. De acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (STTU/Natal), o número de usuários do transporte público gira em torno de 190 mil pessoas por dia, que utilizam os 396 ônibus da frota total, distribuídos em 54 linhas.

A quantidade de ônibus urbanos circulando pela capital hoje é 31,3% menor em relação ao ano de 2019 e o número de linhas também foi reduzido em 32,5%. Em 2019, Natal contava com uma frota de 577 ônibus e 80 linhas. Com menos ônibus e menos linhas, trabalhadores, estudantes e usuários eventuais do serviço que conversaram com a reportagem da TRIBUNA DO NORTE relatam que estão esperando cada vez mais para pegar o transporte e que os ônibus estão sempre cheios. A rotina também foi alterada, agora há quem acorda mais cedo porque teve as opções de condução reduzidas ou quem passou a pegar quatro ônibus para ir e voltar do trabalho.

O especialista em administração e mercado financeiro, Henrique Souza, acrescenta que as questões que envolvem o sistema de transporte coletivo da capital têm diferentes impactos na vida da população. Souza cita prejuízos socioeconômicos e psicológicos para os cidadãos. Em alguns casos, trajetos que eram feitos em uma única viagem passaram a necessitar duas passagens, o que dobrou o gasto com o transporte público. Segundo Souza, esse é um dos motivos que provocam uma insegurança financeira e mais afetam o cidadão.

“Elevam-se os custos com transporte, que já vão impactar o rendimento e salários dos assalariados, dos autônomos, de estudantes, da população como todo e aí faz com que o poder de compra seja reduzido porque vai ter um comprometimento maior com os custos de transportes. Tem as questões associadas a redução da frota, quantidade de linhas disponíveis, mudanças de itinerários e nós somos infelizmente reféns”, comenta.

O professor universitário ressalta ainda que o aumento dos gastos com transporte acaba gerando um efeito dominó, aumentando o estresse e a ansiedade do passageiro. “Se tem um comprometimento maior do ordenado financeiro, as pessoas tornam-se cada vez mais ansiosas, preocupadas por conta disso. Terão também uma preocupação ou uma ansiedade com possíveis reajustes de tarifas, além disso tem o aspecto da infraestrutura, de paradas, tempo de espera alongado, insegurança. Tudo isso gera gatilhos de ansiedade que irão impactar o trabalhador e as empresas também porque essas pessoas irão trabalhar sob regimes de pressão, de cumprimento de horários”, pontua.


Victórias Melo está no último período da graduação de Gestão Hospitalar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e utiliza quatro ônibus todos os dias. A rotina começa às 4h30 da manhã com o primeiro ônibus para a Ribeira, onde trabalha em uma clínica. Depois, ela segue para universidade, para só então voltar para casa à noite. “Eu poderia pegar apenas dois ônibus, mas o 33B é uma lenda, nunca passava, depois tiraram e agora piorou tudo”, conta.

Victórias é moradora do bairro Planalto, na zona Oeste natalense, que recentemente teve a linha 33B (Planalto/Lagoa Seca) descontinuada pelas empresas por questões de rentabilidade. “É um descaso com todos nós que precisamos do transporte público todos os dias. É um desrespeito com o trabalhador, com o estudante, com todo mundo. Como se não bastasse a qualidade do serviço, STTU e empresários retiram linhas diminuem ônibus. A gente que tem o ônibus como único transporte sofre muito porque eles demoram a passar e quando passam já estão superlotados”, desabafa.


As paradas e abrigos para aguardar a chegada do transporte também é outra reclamação frequente dos usuários. Isabelle mora no Igapó e trabalha em um restaurante no bairro de Lagoa Nova. Todos os dias ela sai de casa às 9h e espera o ônibus sob forte sol ou chuva em uma parada sem assentos, cobertura ou qualquer sinalização de que o local é de fato uma parada. “Aqui se a gente for pra sombra perde o ônibus porque não dá pra ver ele chegando. É uma situação absurda que a gente passa”, diz a profissional.

Isabelle Cristina diz ainda que todo o estresse que envolve o simples ato de pegar um ônibus em Natal vem comprometendo sua qualidade de vida. “Saio do trabalho de mais ou menos 19h30 e chego em casa de 21h. Acho que deveriam colocar mais ônibus, ajeitar as paradas, às vezes os motoristas não param ou são muito ignorantes. O trabalho já é cansativo e com isso se torna mais ainda, a gente vai ficando mais estressada, isso tudo vai afetando nossa vida. Aqui a situação está assim desse jeito absurdo”, disse se referindo a parada na Avenida Bacharel Tomaz Landim.


O mineiro Paulo Bonifácio, de 58 anos, que mora no Rio Grande do Norte há 37 anos, afirma que usou transporte público a vida inteira e que a crise do serviço é histórica. “Só foi piorando ao longo do tempo, os ônibus foram envelhecendo e não foram trocados, não há linhas suficientes, os ônibus são sujos, velhos e o serviço é muito ruim. Moro no Planalto e está complicado pegar ônibus lá no bairro. Não vemos mobilização do poder público para amenizar isso, os empresários também não fazem muita coisa. O que tenho visto é uma Câmara dos Vereadores conivente com essa situação, não temos perspectivas de melhora”, relata Bonifácio que trabalha Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Norte.

Bonifácio critica ainda a qualidade do serviço para quem não utiliza regularmente o transporte coletivo. “Andei de ônibus a vida toda e isso deveria ser o normal, o transporte público era para oferecer qualidade para que esse fosse o meio de locomoção do rico e do pobre. Tenho filhas que moram na Europa que confirmam isso, todos utilizam o serviço. Aqui em Natal, por exemplo, você não pode sair à noite. O trabalhador sofre na hora de ir e voltar do trabalho e não pode utilizar o ônibus para um lazer, por exemplo, simplesmente porque não existe ônibus à noite nem nos fins de semana”, diz o administrador.


O jovem trabalhador Luan Pedro, de 19 anos, começou recentemente a carreira profissional em uma empresa de laticínios na Avenida Capitão-mor Gouveia, na região conhecida como KM 6. Luan sai de casa às 8h na cidade de Ceará-Mirim, onde pega o primeiro ônibus para descer no bairro de Igapó e pegar o segundo veículo e finalmente chegar ao trabalho. “Quando saio de lá é até tranquilo, mas quando chega aqui [na Avenida Bacharel Tomaz Landim], o negócio começa a ficar complicado demais porque demora muito a passar, são muitos lotados. É uma luta grande para chegar no trabalho, mas infelizmente a gente que depende disso não tem o que fazer”, conta.

Na volta, ele repete o trajeto para enfim voltar para casa às 19h. Enquanto conversava com a TN, o auxiliar de expedição tentava se proteger do forte sol, na calçada de um comércio que fica na frente da parada. “Aqui você já vê a situação. A parada tem essa cobertura aí que não cabe ninguém, sendo que é uma das mais movimentadas da cidade. A gente tem que se virar aqui pra não levar sol, chuva. Já não basta a qualidade péssima do transporte, a gente também enfrenta tudo isso”, conta o profissional.

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