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Jaime Lerner criou sistema de ônibus por vias exclusivas que revolucionou transporte coletivo

Jaime Lerner criou sistema de ônibus por vias exclusivas que revolucionou transporte coletivo no mundo; entenda por quê

Modelo de transporte de Curitiba foi reproduzido em mais de 200 cidades, conforme estimativa do IPPUC; Lerner implementou a maioria dos elementos que se associaram ao BRT, como cobrança de tarifa antecipada, estações fechadas e embarque no nível da plataforma.


Há quase 50 anos, o arquiteto e então prefeito Jaime Lerner criou, em Curitiba, o sistema de ônibus por vias exclusivas que revolucionou o transporte coletivo no mundo. O modelo para o transporte de massa foi reproduzido, ou ao menos serviu de inspiração, em mais de 200 cidades ao redor do mundo, conforme estimativa do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).


Conhecido por Bus Rapid Transit (BRT), o primeiro sistema foi introduzido no Canadá, em 1973, com características bem diferentes das atuais. Mas, o que chamou a atenção do mundo foi a Rede Integrada de Transporte (RIT) criada por Lerner no ano seguinte, em Curitiba, e o sistema de ônibus expresso, que pela associação de diferentes elementos, se propagou na década de 90, caracterizado pela sigla BRT. Entenda o que é o BRT mais abaixo.

Logo que assumiu a prefeitura, em 1971, o arquiteto colocou em prática o Plano Diretor da cidade, aprovado em 1966, que ajudou a detalhar enquanto trabalhou no IPPUC.

A capital obteve seu primeiro sistema integrado de transporte, nominado como RIT, com a implantação dos ônibus expressos, das linhas alimentadoras e das vias (canaletas) exclusivas.

Vale destacar que a palavra "canaleta", que possui significado de escoar algo líquido, é muito utilizada em Curitiba para se referir às vias exclusivas de ônibus. Isso porque essas ruas fazem o papel de "escoar os ônibus da cidade" para todas as regiões.


O IPPUC revela que com a implantação da canaleta exclusiva para o transporte de massa, a ser utilizada pelos ônibus expressos e integrando os eixos norte e sul com o Centro, deu origem ao primeiro sistema BRT completo do mundo.


A capacidade inicial do sistema era de 54 mil passageiros por dia e a do ônibus expresso era de 90 passageiros. As inovações foram colocadas por Lerner e, mais tarde, foram somadas a veículos de maior capacidade, cobrança de tarifa antecipada, as estações fechadas e o embarque no nível da plataforma.


"Não foi Lerner quem criou a nomenclatura BRT, mas ele foi, sim, o pioneiro a implantar um sistema de transporte nos moldes do que é conhecido atualmente um sistema de BRT, ou seja, um ônibus biarticulado, trafegando em canaleta exclusiva, com embarque em nível e cobrança antecipada de tarifa. Lerner sempre destacou que a maior vantagem de um sistema de transporte por ônibus é sua flexibilidade. Você implanta rapidamente, com um custo baixo, e não engessa o sistema e pode criar diferentes articulações. Isso que ele fez com Curitiba", diz Olga Prestes, coordenadora de Transporte e Mobilidade do IPPUC.


Olga foi estagiária de Lerner, teve ele como professor na faculdade de arquitetura e depois, trabalhou junto com ele no IPPUC e na URBS, na época em que era prefeito da cidade.


A atual coordenadora da pasta no IPPUC conta que acompanhou a transformação da cidade de perto e que todo ensinamento que adquiriu com Lerner carrega até hoje na profissão.

"Foi um privilégio enorme. Eu achava que estava só trabalhando e, na verdade, estava ajudando a escrever a história da cidade. Ele me ensinou tudo, principalmente que o importante é fazer acontecer. Não adianta ter o projeto perfeito e nunca sair do papel. O importante é ter a ideia, mesmo que ela não seja perfeita e, por meio de atitudes e propostas simples, poder concretizar, tirar do papel e colocar na prática na cidade", afirma.


Olga explica que a proposta mais defendida por Lerner como exemplo de mobilidade são os eixos estruturais de Curitiba, eixos de crescimento linear da cidade.


Nesses eixos existe uma via central, com prioridade para o transporte coletivo, integrado ao sistema viário e ao uso do solo, que permite altas densidades de atividades habitacional, comercial e de serviços, incentivando os curtos deslocamentos e garantindo os passageiros para o transporte, que funciona como estrutura principal em torno da qual se desenvolvem ramos secundários.


"Essa foi a grande sacada da época. Por que fazer as pessoas se deslocarem para a área central da cidade ou para outro lugar mais longe de casa, para comprar alguma coisa ou fazer algum serviço? Se diferentes atividades puderem estar reunidas ao longo dos eixos o benefício é para toda a cidade. Hoje isso é óbvio, mas em 1970 não era, realmente essa é uma visão de cidade que poucos tinham na época. A equipe dele era excelente também. Curitiba era a única cidade no Brasil que estava fazendo isso, enquanto todo mundo seguia a tendência mundial da indústria automobilística e preparava a cidade para receber o carro, Lerner preparava a cidade para receber o transporte público".


Um dos sobrinhos de Jaime Lerner, Milton Naigeboren, que também é arquiteto e urbanista, ressalta a importância do sistema criado pelo tio, que funcionou como um tripé: transporte, uso do solo e sistema viário.


"O que eu acho mais interessante dele é que até como urbanista sempre pensou no coletivo. O ônibus disputava espaço com o carro, então ele foi lá e fez um corredor exclusivo, colocou um ônibus expresso que corria no meio. A brincadeira era de 'metrôlizar' o ônibus", diz.


Naigeboren afirma que era criança quando andou no primeiro expresso da capital. Ele, que viveu a vida toda ao lado de Lerner, se orgulha da história escrita pelo tio, que ajudou milhares de pessoas.


"Ele foi incrível, de uma inteligência pura, trabalhou muito, muito mesmo. Ele criou o sistema de ônibus expresso, que depois foi copiado, e até deu assessoria. Hoje é divulgado no mundo inteiro o nome de BRT ligado ao de Jaime Lerner. Se for parar para pensar, muitas das coisas que ele criou a gente só se pergunta: 'como que ninguém tinha pensado nisso antes?', ele foi certeiro demais", comentou o sobrinho.


Condução do crescimento urbano

Jaime Lerner projetou um sistema que não apenas transportasse pessoas, mas conduzisse o crescimento urbano.

"Ele estabeleceu que, ao longo da canaleta, pudesse ter habitação, comércio e serviço. E até então as cidades eram muito setorizadas. Aqui é residência, aqui é comércio e serviço, aqui é esporte. Lerner permitiu uma mescla ao longo da canaleta para ter menores deslocamentos. Essa ousadia de fazer as coisas acontecerem em um curto espaço de tempo dava credibilidade para ele", diz Olga.

Ela explica que quando ele idealizou os primeiros corredores, colocou faixas exclusivas em locais fora do eixo central, justamente para levar o desenvolvimento àquela região por meio do transporte.


"Jaime Lerner sempre fazia questão de dizer que o nosso sistema é um metrô de superfície, com todas as vantagens do metrô, a rapidez, o carregamento de um grande número de pessoas, mas sem perder a referência da cidade. Ele falava que quando você anda na superfície, você acompanha o crescimento da sua cidade. Ele falava que pela janela do ônibus você se torna parte da cidade, você se reconhece, conhece a paisagem e acompanha tudo que acontece".

Conforme Naigeboren, Jaime Lerner e a equipe idealizavam uma cidade que combinasse grandes estruturas de trabalho e vida, evitando o crescimento desordenado e a saturação do Centro.


"Se olhar as estruturais, que são os conjuntos das vias rápidas, via central do ônibus e outra via rápida no sentido contrário, ele não só colocou o ônibus ali, a ideia foi colocar transporte associado a comércio, serviço. Então onde tem transporte tem muita gente morando hoje. Para mim o grande desenho foi esse, associar crescimento da cidade com transporte", pontua ele.


E o sobrinho complementa: "Acredito que a grande ideia foi a estação tubo, que trouxe um sistema diferente, um embarque pré-pago que não existia antes. O cobrador fica fora do ônibus, então você ganha tempo. O sistema é rápido porque é bem pensado e não porque tem velocidade no ônibus. O ônibus para, desce o pessoal em uma porta, sai pessoal pela outra porta, organiza o sistema".


Projeção internacional

Por causa do projeto de planejamento urbano e transporte integrado na capital paranaense, Lerner ficou internacionalmente conhecido.


"Na década de 90, delegações vinham para Curitiba conhecer o sistema de transporte criado por ele. Tanto que a Urbs e o IPPUC tiveram que montar equipes só para organizar as visitas. Foi criado na Urbs um auditório para receber as pessoas. A gente pegava um ônibus reserva do sistema para andar na canaleta com a delegação, de tão grande que era. Eles ficavam dias fazendo perguntas, conhecendo, tirando foto, era algo impressionante", relembra Olga.

Bogotá, na Colômbia, foi uma das cidades que se inspirou no modelo da capital paranaense, lançando o "TransMilenio".


A coordenadora ainda conta que o modelo agradou também prefeitos do Brasil que queriam inovar nos projetos de mobilidade, mas não sabiam como, já que o sistema convencional de transporte público se utiliza das faixas comuns do trânsito.


"Todos os prefeitos querem mostrar um bom trabalho para a cidade, e como era possível fazer em uma gestão assim? Pensar um projeto e poder implantar na sua gestão, todos ficaram interessados. Então, ele atraiu os olhares de todos os governantes públicos. Ele repetia sempre 'depois acertamos, se a ideia é boa, ela tem que sair do papel'. E é a mais pura verdade".


Cidades como Belém, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia e São Paulo também possuem o sistema de ônibus de trânsito rápido.


Devido a outras obras criativas de mobilidade e sustentabilidade, durante seus cinco mandatos (três vezes prefeito e duas vezes governador do Paraná) e também depois que largou a vida pública, Lerner se consagrou como um dos urbanistas mais conceituados do Brasil e do mundo.


Entenda o que é o BRT

O denominado Bus Rapid Transit (BRT), cuja tradução é ônibus de trânsito rápido, é um sistema de transporte público massivo baseado em ônibus e desenhado especificamente com serviços e infraestruturas para melhorar o fluxo de passageiros.

Descrito muitas vezes como "metrô de superfície", o BRT pode utilizar veículos como: trólebus (elétrico); ônibus urbano; ônibus articulado; ônibus biarticulado; micro-ônibus e ônibus guiado por sistema de canaletas.

Para ser considerado um verdadeiro sistema de BRT, deve ter os seguintes elementos:

  • alinhamento no centro da via, para evitar atrasos típicos do lado do meio-fio;

  • estações com cobrança de tarifa fora do veículo, para reduzir o atraso do embarque e desembarque relacionado com o pagamento ao motorista;

  • estações com o nível do piso do ônibus, para reduzir o atraso do embarque e desembarque causado por escadas;

  • prioridade de ônibus nos cruzamentos, para evitar a atraso em intersecções rodoviárias;

  • corredores ou faixas exclusivas para os ônibus, para que não sejam afetadas pelo congestionamento do trânsito;

  • múltiplas portas para acelerar embarques e desembarques, para melhorar o acesso a deficientes físicos.

Transporte coletivo em Curitiba

Confira, abaixo, uma breve linha do tempo do transporte coletivo na capital:

  • Até a metade da década de 1950 o transporte coletivo de Curitiba era composta por lotações.

  • O Plano Diretor de Curitiba foi adotado em 1966 e modificado em 1972.

  • Em 1974 foi inaugurado o tráfego de coletivos em vias exclusivas, os chamados ônibus expressos.

  • No ano de 1979 ainda não havia a integração tarifária da RIT, portanto moradores que precisavam se deslocar até o Centro deveriam um pegar ônibus alimentador e no terminal pegar um expresso, pagando outra passagem.

  • Na década de 80, foi lançada a integração fisíco-tarifária, onde o passageiro usava um ou mais ônibus para seu deslocamento pagando apenas uma passagem por trecho.

  • Posteriormente, o sistema de Curitiba adicionou uma rede de ônibus alimentadores e conexões entre zonas.

  • Em 1992, introduziu a cobrança de tarifa externa, estações fechadas e embarque no nível da plataforma.

  • Ainda nessa década, surge a linha direta, chamada de "ligeirinho" e as estações tubo.

  • Em 92, começa a circular os biarticulados vermelhos, com capacidade de 220 passageiros.

  • No ano de 1996 ocorre a integração entre a rede de transporte de Curitiba com a Rede Metropolitana, chamada de RIT-M.

  • Em 2009, foi criada a Linha Verde, formada por uma pista central exclusiva para o ônibus biarticulado que faz a linha Pinheirinho/Carlos Gomes e por pistas para circulação de veículos.

  • No ano de 2011 é apresentado o "Ligeirão Azul", com 28 metros de comprimento e capacidade para 250 passageiros. É movido a biocombustível 100% a base de soja e abre eletronicamente os semáforos.


  • Em fevereiro de 2015 ocorreram mudanças na RTI. A bilhetagem eletrônica feita pelo Cartão Transporte foi extinta na Região Metropolitana, que passou a usar o Cartão Metrocard.

  • No ano de 2018 foi criada mais uma linha de "Ligeirão", com paradas apenas nos terminais e estações centrais, visando diminuir o tempo da viagem.


Em 2021, a Rede Integrada de Transporte (RIT) possui mais de 80 quilômetros de corredores de ônibus, geralmente operados por veículos biarticulados, que conectam os terminais integrados nas diversas regiões da cidade.


O sistema é operado pela Urbanização de Curitiba (Urbs) e a Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec).


O transporte coletivo que atende a Curitiba também é caracterizado por uma identidade visual própria, isto é, as cores dos ônibus identificam o tipo de serviço, o modal de operação dos veículos - que podem tanto atender uma área da cidade, como fazer uma ligação direta até o Centro ou outros terminais.

  • Alimentador: Ônibus na cor laranja.

  • Convencional: Ônibus na cor amarela.

  • Troncal: Ônibus na cor amarela.

  • Linha direta: Ônibus na cor cinza.

  • Interbairros: Ônibus na cor verde.

  • Expresso: Ônibus na cor vermelha ou azul.

  • Circular: Na cor branca.

  • Jardineira (Turismo): Na cor verde musgo.

  • Metropolitano: Geralmente na cor bege.


"Essa ideia de você identificar o serviço pela cor de um ônibus é maravilhosa. Você vê um ônibus verde e sabe que é um Interbairros. Você vê um ônibus 'prateado', já sabe que é um Ligeirinho e que só para em uma estação tubo, agora se for um ônibus vermelho só pode ser um BRT. Não precisa olhar o letreiro. Isso foi ideia do Lerner", comenta Olga.

Conforme a Urbs, a RIT permite ao usuário a utilização de mais de uma linha de ônibus com o pagamento de apenas uma tarifa.


O processo de integração ocorre a partir de terminais de integração onde a pessoa pode desembarcar de uma linha e embarcar em qualquer outra dentro daquele espaço sem um novo pagamento.

"E até recentemente, uns três anos atrás, a gente continuava conversando e Lerner sempre dando ideias, sempre falando. Sabe a pessoa que não quer guardar para si as boas ideias? Faz questão de falar para o máximo de pessoas para que alguém faça, não precisa ser ele. Lerner não tinha a preocupação de ele fazer, mas queria que a ideia fosse implantada. Esse é o legado dele. Não precisa guardar as informações para você. Se a informação é boa, passe para frente", conclui Olga Prestes.

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