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Trajeto de ônibus mais longo do Rio ilustra tempo desperdiçado em transporte na cidade

A linha 388, que vai do Cesarão, em Santa Cruz, na Zona Oeste, à Igreja da Candelária, no Centro, tem percurso que consome o tempo e testa a paciência dos passageiros


A cuidadora de idosos Iraci Cardeal, de 58 anos, acorda de madrugada quando precisa ir ao centro buscar remédios na Farmácia Estadual de Medicamentos Especiais (Rio Farmes). Levanta às 4h, para poder chegar ao local às 11h, mas também para garantir lugar sentada: ela é usuária da linha de ônibus com o itinerário mais longo da cidade, a 388, que vai do Cesarão, em Santa Cruz, na Zona Oeste, à Igreja da Candelária, no Centro.


De acordo com a Secretaria municipal de Transportes (SMTR), o trajeto de ida e volta da 388 soma 140 quilômetros e é o maior entre as linhas urbanas da cidade. Passageiros como dona Iraci dizem que o tempo gasto dentro do ônibus pode chegar a quatro horas. Essa viagem interminável ilustra a posição do Rio no ranking do Relatório Global sobre Transporte Público. Na lista, divulgada pela plataforma Moovit, a capital fluminense figura como a fornecedora do quarto pior serviço no mundo entre cem metrópoles estudadas. Ficou atrás apenas de Istambul (Turquia), Cidade do México e Bogotá (Colômbia).


Preparativos para viagem

A pesquisa apurou que cariocas consomem em média 67 minutos a cada deslocamento. Para os passageiros da linha 388, que enfrentam muito mais tempo a bordo, alguns cuidados especiais são necessários. Além da antecedência, há quem faça jejum para adiar a vontade de ir ao banheiro. E é preciso se preparar para um longo trajeto com ar-condicionado inoperante.


— Fico toda quebrada. Todo mundo aqui paga passagem, tem muita gente que vai em pé. As pessoas são humilhadas — revolta-se Iraci, que, mesmo fazendo o percurso uma vez por mês, preocupa-se com quem usa o serviço todo dia.


O GLOBO embarcou no 388 que deixou o ponto final em Santa Cruz, às 6h30 de uma segunda-feira (dia 3), e chegou ao Centro às 9h47, em viagem considerada tranquila pelos passageiros mais experientes. Naquela manhã, a Avenida Brasil, percorrida em boa parte do trajeto, só teve trânsito pesado na saída da Zona Oeste. A chegada ao Centro se deu sem muita retenção.


Carla Fernando, de 24 anos, mora em Santa Cruz e trabalha como auxiliar administrativa no Centro. Para chegar às 9h, ela sai de casa às 5h50, leva o filho até a creche, e depois segue para o ponto de ônibus. Quando embarca no 388, já não consegue lugar para sentar: ficou de pé na primeira hora do trajeto, acompanhado pela nossa equipe. Na volta, a maratona continua. Quando sai do trabalho na hora, às 19h, ela chega em casa por volta das 22h.


— Ainda vou cuidar do meu filho, Heitor, de 3 anos, da casa e preparar a marmita do dia seguinte. Fico com vontade de me mudar, me sinto exausta — lamenta Carla, que naquele dia chegou com mais de 40 minutos de atraso ao trabalho.


O veículo em que a reportagem embarcou teve dificuldades ao subir ruas íngremes de Santa Cruz e, na Avenida Brasil, enfrentou trânsito mais lento a partir de Padre Miguel. A situação melhorou em Deodoro, mas, como linha paradora, a 388 percorre o trajeto pela pista lateral, para embarques e desembarques. O corredor com passageiros de pé só esvazia na altura da Penha.


O veículo D53555, no qual a equipe do GLOBO embarcou, tinha balaústres soltos, botões de desembarque faltando, bancos com estofado rasgado e ar-condicionado inoperante. Pichações e um buraco no chão, através do qual se enxergava o asfalto, completaram o cenário.


Ouvir música e zapear no celular são as distrações mais comuns, mas nem sempre possíveis.

— Os ônibus são uma sucata, você ouve a barulheira, não consegue nem tirar um cochilo. Os bancos são desconfortáveis, é tudo precário — contou o carpinteiro Cleber de Oliveira, de 53 anos, que usa a linha para chegar ao trabalho, em Guadalupe.


A 388 voltou a circular em julho do ano passado. Passageiros frequentes da linha criaram até um grupo de WhatsApp, com mais de 60 integrantes, para troca de informações.


— Antes de sair de casa, meu preparo inclui evitar beber muita água e tomar um café da manhã reforçado. Já deu vontade de fazer xixi, mas tem que segurar — ensina José Almeida Santos Filho, de 51 anos, que levou duas horas para ir do Cesarão até a Penha, onde faria um exame.

Jornada estafante

Motoristas que trabalham no itinerário da linha urbana mais longo da cidade também têm o que reclamar. As queixas incluem excesso de horas extras, que podem levar a mais de 12 horas de expediente, e falta de banheiro.


— Hoje entrei antes das 6h e só devo sair depois das 17h, com uma folga na semana — reclamou um motorista, que preferiu não se identificar.


A psicóloga Bruna Corradini explica que o tempo do deslocamento — longe de ser um problema apenas na linha 388 — tem impacto direto na saúde mental:


— Precisamos entender que essas pessoas estão atentas ao trânsito, preocupadas com a violência urbana, pensando nas demais atividades que ainda vão fazer. O cérebro está fatigado quando chegam ao destino.


De acordo com dados da SMTR, logo atrás da linha 388 e seus 140 quilômetros de ida e volta, cruzam longas distâncias pela cidade a LECD 46 (Sepetiba—Coelho Neto), que roda 112 quilômetros; a Integrada 8 (Rio Sul—Piabas) e a 361 (Recreio—Castelo), cada uma percorrendo 109 quilômetros; além da 397 (Campo Grande—Candelária), que faz 104 quilômetros.

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